
Por Rômulo Chaves
Compositor e músico nativista
Lindolfo, filho de imigrantes, com as mãos no solo da colônia Cash, interior gaúcho, pensa na semente, olha o dia, procura no horizonte, a presença do sol que vai animar a vida que há de brotar!
Neste 1952 o tempo passa devagar, o trabalho é feito com as mãos e a safra está no coração, na fé… Buscando um gesto de esperança cuja cor combina com o verde da planta e está em perfeito acordo com as leis da vida: vigiar; acreditar, e, com certeza, amar o que se faz!
É pelo amor à terra que a semente sai das mãos com pele espessa e castigada e vai ao solo preparado com o suor do trabalho. O mesmo amor à terra com que os gaúchos, vindos de tantos lugares do mundo, acreditam no futuro de sua gente que está plantada neste lugar, no que chamam de “querência”.
Lindolfo é mais um destes. O chapéu de palha bem tramado e de abas largas defende o sol, mas entende o vento, o mesmo vento que trocará o pólen das plantas no tempo certo que, sem querer, também envia a semente das daninhas ao solo, que haverão de ser controladas com o trabalho das mãos, novamente.
Os passos lentos pela terra preparada seguem a velocidade com que a semente se adapta ao plantio, o “saracuá” firme às mãos para que desempenhe o papel importante junto ao semeador e os olhos cuidando os detalhes, vão garantindo a lida do dia e o futuro da família.
Lindolfo pensa em Mercedes, que ficou junto à casa cuidando dos bens maiores da família, e, por estes dias, o cuidado especial ao bebê Osmar, que nasceu em julho.
Como Mercedes faz falta junto a lavoura, e ainda dizem que a mulher não tem força… Mas quanta força há na mulher do Sul que, só deixa de cuidar de um futuro quando cuida de outro… Se não está diante do sol e vento, com os cuidados dedicados a terra, no plantio e garantia de novas safras, está junto de casa cuidando o futuro da vida humana e do próprio Rio Grande, que tem forma de criança, sorriso espontâneo e ainda chora pela adaptação ao mundo novo que enfrenta.
Lindolfo era, sim, um homem de seu tempo, de poucos sorrisos, observador, atento, mas de um grande coração. Uma figura de coragem diante da vida e com a simplicidade que acompanha aqueles que nascem para ser povo, para serem a base da nação e os semeadores tão necessários a garantia da semente.
Os olhos verdes, que já viram tanto, ainda se impressionam com a dimensão linda dos campos do Rio Grande do Sul, com a terra vermelha que tinge o horizonte e, curiosamente, parece ter sido coloreada pelo poente que Deus presenteia estas paragens todos os dias, ao entardecer.
Ainda há muito a percorrer, o lugar que o sol ocupa no céu denuncia que o dia ainda será longo, produtivo e com muito a exigir.
Mas que gratidão incomum ocupa a alma de quem semeia! O gosto por ver a terra abrigar a semente e entender que o céu precisa abençoar de chuva na hora certa, para que tudo corra bem. Nem muito, nem pouco, mas no equilíbrio que Deus sabiamente criou.
A vida precisa de harmonia para estar em renovação e o trabalho precisa de vida para ser feito, assim como o futuro precisa de gente para existir!
Lindolfo é silêncio e trabalho, os pássaros podem ser ouvidos neste momento, o velho quero-quero emite seu som de sentinela enquanto a vida se refaz junto da terra, pelas mãos de quem trabalha.
Um pequeno ponto vital no meio do interior do Rio Grande do Sul, no início ou no fim do mundo, pouco importa, mas falando em importância, quem um dia haverá de notar tão simples biografia?! Talvez no futuro contem sua história, ou, o mais certo é que não contarão, mas a terra… Ah, esta ainda será terra, mãe dos seus e senhora das safras, para onde os homens voltam num último abraço. E esta terra não esquece de homens feito Lindolfo e haverá de inspirar outras almas a lembrarem em seu tempo, valorizando a semente antiga que repousa na vida, mas segue dando frutos em outro tempo, no mesmo solo, com a mesma missão.
04/05/2022
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